Cores e Tesouros da Alma
A raça, a cultura, e a religião não fazem de alguém um ser superior, fazem-no, a capacidade de tolerância, de compaixão, solidariedade e de amor pelos outros seres humanos. A imperfeição da condição humana, leva-nos muitas vezes, a fazer julgamentos de tudo e de todos, por receio, desconhecimento, condicionados pela educação ou pelos meios de informação e pela curiosidade e atenção que despertam, preenchem grande parte dos noticiários ou das folhas dos jornais, com notícias sobre os acontecimentos mais negativos, que acontecem pelo mundo, ou em determinadas zonas de um país ou cidade.
Já por mim foram referidas as minhas origens, para aqueles que não sabem, posso dizer que na cidade de Luanda, existem bairros de construção tipicamente africana, com casas muito rudimentares, feitas em palha (as palhotas), em barro, ou chapa. Musseques é a designação desses bairros, palavra que tem origem no Kimbundo, um dialecto angolano. “Mu seke”, significa terra vermelha, porque esses bairros estão assentes em terra de cor vermelha, uma característica muito bonita e muitíssimo comum da terra, em África. São bairros sem infra-estruturas, não têm água corrente, nem luz eléctrica, sem esgotos, recolha de lixos, nem arruamentos alcatroados, onde residem os negros esquecidos da sociedade, que pela pobreza, falta de escolaridade e formação profissional ou falta de oportunidades, vivem agrupados nestes bairros em condições de extrema pobreza. Não por proibição, apenas a discriminação e o preconceito, causado pelo medo, impediam as pessoas de raça branca, de entrar nesses bairros.
No entanto, eu e o meu pai atravessámos um desses bairros. Já não recordo os antecedentes que levaram a essa situação, recordo apenas que estava com o meu pai e que nos dirigíamos para casa, a pé, por falta de transporte. A distância a percorrer era muita e para encurtar caminho, o meu pai teve a ideia de atravessar um musseque., coisa que não lembraria a outro branco fazer, e muito menos ao pôr-do-sol. Atravessámos o musseque em direcção à nossa casa, que se situava num bairro da periferia, na zona sul da cidade.
A situação, por não ser vulgar, gerou uma maior atenção por parte dos habitantes, fomos alvo constante dos seus olhares e testemunhas do silêncio que se gerava, quando passávamos por grupos de pessoas a conversar. O percurso foi feito com toda a normalidade e respeito entre as duas partes, com alguns cumprimentos de “boa tarde” por parte do meu pai, que eram prontamente respondidos com a mesma educação. Por ser ainda uma criança tive apenas a percepção da diferença, sem consciência das razões, mas esse acontecimento fez-me já perceber que nem tudo o que se diz corresponde à realidade. Discriminamos o próximo pela raça, pela aparência, pelos costumes, por convicções religiosas ou simplesmente pela informação negativa que nos chega.
As relações entre pessoas com diferentes culturas podem assumir vários aspectos, de aceitação e por isso construtivas, ou de rejeição e que podem levar ao conflito. A tolerância, torna-se indispensável se queremos o bem-estar nas relações interculturais e só assim conseguiremos a paz mundial, ao erradicarem-se todos os complexos de superioridade e actos de discriminação em relação aos que nos são diferentes. Estas atitudes de discriminação têm sido causa de muitos genocídios e actos terroristas.
A primeira coisa que todos deveríamos perceber é que nós não somos apenas um corpo físico! Nós somos corpo e alma, ou espírito, como preferirem chamar-lhe e entendamos de uma vez por todas que não é no físico que se encontram os sentimentos, as virtudes ou imperfeições.
O amor não tem cor!
Ter a pele clara ou escura, ter olhos azuis ou verdes, ter cabelos lisos ou encaracolados, são características do físico, a bondade ou maldade, a compreensão ou incompreensão, a tolerância ou intolerância, o amor ou rancor, são características da alma. Embora seja através do corpo que manifestemos todas estas características, é na nossa alma que elas se encontram e o corpo só actua por vontade da nossa alma, por isso, o que importa realmente é a “cor” da nossa alma, que pode ter uma variedade de cores, de negra a branca, conforme o nosso nível de perfeição ou imperfeição e os actos de maldade ou bondade que pratiquemos.
Importa dar-lhe valor porque a alma é realmente o que somos nós e é eterna. O nosso corpo é apenas uma carcaça que está para a alma, como as vestes estão para o corpo.
A condição socioeconómica de uma pessoa não lhe concede estatuto de superioridade sobre qualquer outra pessoa. O dinheiro é importante e quanto mais tivermos, maior quantidade de bens podemos obter, mas, em vez interiorizarmos sentimentos de pertença e superioridade, devemos substituí-los por sentimentos de compaixão e solidariedade, por aqueles que pouco ou nada têm. A riqueza da alma, é a que realmente tem valor, essas riquezas são a caridade, a solidariedade, o amor, o respeito, a tolerância, a compreensão e a compaixão pelo próximo, únicas riquezas que fazem resplandecer a alma, as que realmente nos pertencem, porque são as únicas que nos podem acompanhar e das que podemos dispor eternamente. O melhor exemplo é Jesus Cristo, desprovido de bens materiais, mas carregado de muitos bens espirituais, e que continua ainda e para sempre, partilhando essa riqueza espiritual, com todos aqueles que necessitam.
As desigualdades socioeconómicas existem desde sempre, mas a falta de oportunidades de trabalho, de salários justos e igualitários, agrava a situação de pobreza, reforçando ainda mais as desigualdades. Milhões de pessoas sobrevivem na miséria, com recursos mínimos, enquanto outros vivem na opulência. Estas situações de miséria são ainda mais acentuadas nos países do Terceiro Mundo, pela disparidade no valor dos salários de base e do topo e pela falta de apoios sociais e económicos às pessoas mais desfavorecidas. Uma política de justiça salarial, serviria de incentivo para os trabalhadores aumentarem a produtividade, que é quase sempre condicionada pelo descontentamento. O aumento da produtividade traria benefícios não só para a empresa, mas também para a economia do país em questão.
Discriminação da mulher, camuflada de “cultura”
Todos nós temos direito à diferença e todos nós temos o dever de ser tolerantes, basicamente concordo com estes princípios, mas agora pergunto eu, ser tolerante e aceitar as diferenças implica que tenho de aceitar todos os costumes e práticas sejam elas quais forem, só porque fazem parte da cultura de um país?
Também daqueles que vão contra os direitos mais elementares da vida humana? Daqueles que, por exemplo, desvalorizam a mulher em relação ao homem? Daqueles, que condenam uma pessoa a tratamento indigno e falta de respeito à sua condição humana, desde o nascimento, só porque nasceu mulher? Aceitar, só porque é um costume, que as mulheres, por uma questão de sobrevivência, se submetam a toda uma existência de “morte em vida”, sem identidade, presas atrás de panos? Devo, porque faz parte de uma cultura, aceitar a mutilação genital, de que milhões de mulheres em África e no Oriente Médio são vitimas? Aceitar, que se manipule a mentalidade de milhões de mulheres, para que acreditem que são indignas, caso não andem tapadas e presas atrás de panos e redes, ou se não permitirem que lhes seja extraído o clítoris? Aceitar ainda, que em algumas tribos africanas, as mulheres tenham sido levadas a acreditar que só são amadas pelos seus maridos se eles as flagelarem barbaramente, porque esse acto é a demonstração do seu amor? Tenho de me conformar então, que essas mulheres, acreditando na veracidade desses absurdos, tenham agora dificuldade em libertar-se dessa condição?
Não e não! Na minha opinião, são apenas actos de barbaridade e de discriminação contra a condição feminina, que se arrastam há séculos e que para assegurar a sua continuidade, se tornou necessário camuflá-las, integrando-as como parte de uma cultura!
Deveria actuar-se mais enérgica e rapidamente com o objectivo de acabar de uma vez por todas com estes “costumes diferentes” que são um atentado à dignidade das mulheres e aos seus direitos como seres humanos. A aceitação destas “diferenças” tão indignas, faria de mim uma cúmplice na concordância destas práticas, e se ao posicionar-me contra, sou preconceituosa, admito então, que em relação a estes temas, sou muitíssimo preconceituosa. As atitudes de preconceito, xenofobia, discriminação e de racismo, continuam a sustentar guerras, massacres e terrorismo por todo o mundo, por isso devemos evitá-las e não permitir insultos, humilhações ou maus-tratos a pessoas, sejam elas diferentes ou iguais a nós!
Os Estados Unidos, quase sempre, os primeiros intervenientes em situações de conflito, segundo eles, com intenção de defender os direitos humanos de populações vítimas de massacres e de actos de desumanidade, por parte de alguns regimes de ditadura, são depois, os que em nome desses direitos humanos, cometem actos similares, contribuindo para a morte de mais inocentes, fazem prisioneiros, que são depois igualmente mantidos e tratados de forma humilhante e desumana como por exemplo nas prisões de Guantanamo e de Abu Ghraib.
Humilhações e trato desumano nas prisões de Guantanamo, em Cuba...

e nas prisões de Abu Ghraib, no Iraque
A ONU (Organização das Nações Unidas) é uma das organizações presentes em todas as situações de conflitos, guerras, fome ou de catástrofes que ocorrem por todo o mundo, através das suas organizações complementares, como por exemplo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a PAM (Programa Alimentar Mundial) e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Com 192 estados membros, que a financiam, tem como Secretario Geral, o coreano Ban Ki- Moon. Foi fundada em 1945, com o objectivo de deter guerras entre nações e servir como base para diálogos de entendimento.
OMS (Organização Mundial de Saúde), fundada em 7 de Abril de 1948, e subordinada à ONU, tem como principal objectivo desenvolver o nível de saúde em todo o mundo.
PAM (Programa Alimentar Mundial), fundada em 1963, esta agência das Nações Unidas é a maior organização humanitária do mundo, o seu maior objectivo é o combate à fome, ajudando milhões de pessoas por todo mundo.
UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), é uma agência das Nações Unidas, fundada a 11 de Dezembro de 1946, o seu objectivo é ajudar a cobrir as necessidades básicas das crianças, defendê-las e promover todos os seus direitos.
A ONU está dividida em várias instâncias administrativas, das quais se destacam:
Ø Conselho de Segurança, que dita as diferentes resoluções para a paz e segurança;
Ø Conselho Económico e Social, para promover a cooperação e desenvolvimento socioeconómico internacional;
Ø Tribunal Internacional de Justiça, principal órgão da ONU, com a função de resolver conflitos de Estados e emitir pareceres sobre questões jurídicas.
São necessárias políticas de educação e sensibilização para estes problemas, porque só assim se resolvem. Quando era criança, sentia-me feliz a brincar com crianças negras e mestiças, nunca os olhei como inferiores, eram apenas diferentes na cor. Será porque tive uma boa educação e nunca me incutiram esse preconceito? A verdade é que essa educação serviu para me relacionar estreitamente, durante toda a vida, com pessoas diferentes em raça, em cultura e em condição física.
Graças a Deus, não necessitei de esforços para educar os meus filhos na aceitação das diferenças, se calhar porque nunca tiveram referências em contrário.
As diferenças existem e sempre existirão, mas está nas nossas mãos construirmos e vivermos num mundo de paz e concórdia, se aprendermos a respeitar o próximo e não fizermos aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós.
Fontes de pesquisa:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhxlF-9mJ0IxUi0GoKo6C4UC_NKqwRM58H5cLR_sUdSCPHDJxRxFGf8dkfvHzZu_fJBeqUTCo2p6p2GazSQW-8Pw27BsFPnyJcs1eYgKmIgy_hE3kPMRvca69ORDhKNZWpZEpHQNMI_QtlQ/s1600/Abu-ghraib-leash.jpg
http://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas
http://sobretu.blogspot.com/2009/05/um-bom-e-encorpado-caetano-de-volta.html?zx=576c07801b1ad797


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